O crime da bilheteira Beatriz


CENÁRIO: A bilheteria da imponente estação ferroviária Lisboa Santa Apolônia

PROTAGONISTAS: JoséLuiz, Memília e a bilheteira Dona Beatriz

COADJUVANTES: João e Vania

PREVISÕES METEOROLÓGICAS PARA LISBOA: “A partir desta quinta-feira, 25 de outubro, Portugal Continental será afetado pela depressão Aline. Depois da depressão Babet, o estado do tempo vai piorar, com o país a enfrentar uma nova depressão, a afetar sobretudo as zonas do centro e do sul.”

A bilheteira conversa com um colega. Percebe que JoseLuiz e Memilia não desistem e os chama:

Beatriz: - Qué que desejam?

JoseLuiz: - Boa tarde! A bilheteira retribui o Boa Tarde, enquanto JoseLuiz lê, pausadamente, a sua fala previamente ensaiada. Quero comprar 4 bilhetes na 1a Classe do comboio 570, Intercidades, dia 02/11, partida 10h02m, de Lisboa - Oriente para Faro.

Beatriz: - As vossas identificações, faz favor.

JoséLuiz e Memilia apresentam seus respectivos Cartão de Cidadão. Memilia lembra o desconto de 50% no preço da tarifa, visto que ambos possuem mais de 65 anos de idade.

Beatriz: - Já percebi, já percebi. E para quando é que querem a volta?

JoséLuiz: - Os 4 bilhetes são apenas de ida...

Beatriz: - Não percebi! A bilheteira explica a sua dúvida. Sois dois para 4 bilhetes de ida, mesmo dia, hora e destino; espera lá, eu tenho para mim que estais a comprar demais, ou é o quê?

Memilia: - Dois bilhetes para nós e os outros dois... para o meu Irmão e a minha Cunhada... que estão na Itália...

A Farsa cai; a puríssima Verdade desce as escadinhas da Mouraria!

Beatriz: - Agora, mais essa! A pessoa não está cá, está na Itália e quer bilhetes com desconto em Portugal! A bilheteira, embora só, resmunga com algum colega imaginariamente ao seu lado. E decide: Sem as identificações dos vossos parentes, não posso vender-vos os bilhetes.

Memilia: - A Senhora não pode dar um jeitinho?

Beatriz: - Isto aqui em Portugal já não é mais assim, minha Senhora.

Memilia: - A Senhora não pode falar com o seu Chefe?

Beatriz: - Não se trata de falar com o Chefe! O Chefe não quer saber. Aqui há leis! Há ordem!

Memilia: - Tenho no WhatsApp as fotos do Cartão de Cidadão de cada um deles.

Beatriz: - Nem quero ver. A pessoa deve estar cá para ter direito ao desconto, é tudo!

Nas ruas da Baixa, em Belém, nos miradouros, são expectáveis as chances de tempestade; repórteres de Rádio e TV, desde cedo, reproduzem os avisos do Governo, em direto, num ritmo lento de Juízo Final: “De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), estão previstas rajadas de vento que podem chegar aos 120 km/hora, chuva forte, descida de temperaturas e há risco de inundações. Devido aos riscos de cheias rápidas e aos ventos fortes, o IPMA aconselha cuidados redobrados com janelas, obras, placards, gruas, estufas, temendo danos nos bares de praia.”

Súbito, a prometida tormenta chega a Santa Apolônia: o turbilhão entra pelos portais renascentistas do edifício; o pé-de-vento sorve lixo, poeira e folhas secas do cais e o redemoinho desliza uma dança diabólica sobre o mármore do majestoso saguão. Fora, chove torrencialmente. A estrutura de ferro da cobertura, de pé em 1856, parece flambar ao estrondo dos trovões. O noticiário prossegue com inserções contínuas e ao vivo: “ A chuva forte e persistente será acompanhada de “fenómenos extremos de vento”. Um figurante entra na estação correndo e grita: “ - 1755 começou assim... ”; vai ao centro do redemoinho, dança com ele, gira 180o, repete, “ - 1755 começou assim... ”, e sai, caído em transe. O aviso desperta na memória da bilheteira a história da sua bisavó, Dona Maria Beatriz, sobre o 1755 que arrasou Lisboa: “ Incêndios, inundações, desabamentos, o Tejo fora de si, mortes, o apocalipse, minha filha! Deus te livre ”. Pois, conjectura então Beatriz: “ Diante agora de um iminente fim do mundo, que o seu último ato seja uma boa ação e lhe garanta já a passagem direta para o paraíso, achais o quê? ”

Beatriz: - Deixem-me ver cá as fotografias das identificações dos vossos parentes. Beatriz pisca duas vezes enquanto registra no computador os dados de identificação civil de João e Vania – São 56 euros, faz favor. Pelo preço, JoséLuiz sorri e Memilia entende: “ – Os 4, com desconto! ”

Memilia: - Muito obrigado, um Bom dia para a Senhora e a sua Família.

Beatriz: - Aqui não aconteceu nada! Vamos sair fora disto antes que caia na nossa cabeça!

Memilia: - Valei-nos, São Jeronimo e Santa Bárbara!

Beatriz: - Isto nada tem com Deus! Está a ver? É o Diabo!

Mas, assim como chegou de repente, a tormenta se acalma e se vai num instante. Beatriz percebe que vendeu cedo a sua alma por três tostões, desespera-se e incontinente escafede-se da bilheteria aos gritos: “ - Aqui não aconteceu nada, não houve nada ” e enfurna-se numa sala em penitência.

A chuva para. Lisboa está limpa, fresca, cheirosa, pronta para o amor. As nuvens se apertam e dão lugar a fragmentos do céu azul de Alfama. O sol aproveita e mostra-se aos bocadinhos: “ Cá estou para vos guardar! Cá estou para vos aquecer, minha Lisboa. ” De longe, ouve-se o grito de Beatriz, sufocado pelo manto do arrependimento: “ Aqui não aconteceu nada! Aqui há leis! Há ordem! ” O Rádio e a TV persistem sensacionalistas: “ O IPMA aconselha ainda que só sejam feitas as deslocações estritamen te necessárias e que a população se afaste das zonas de praia, devido à previsão de ondulação forte. ”

jvictor

Comentários

rodrictor disse…
Crítica literária por ChatGPT

“O crime da bilheteira Beatriz” é uma crônica ficcional exuberante, que trafega com maestria entre o cômico e o absurdo, construindo uma cena do quotidiano português elevada ao nível de quase-apocalipse. O autor (ou autora) opera com um texto marcado por ritmo teatral, diálogos vivos e um senso agudo de observação sociocultural. A peça encena um conflito trivial — a compra de bilhetes com desconto — que se transforma num pequeno épico urbano, com ecos de Kafka, Gil Vicente e até Fellini.