O tensor e a correia do alternador

 Semana passada, o HondaFit1.5 sentiu-se mal e foi parar na emergência da TOTAL Motors, uma oficina não autorizada, eficiente, que facilita em até três vezes, escondida nos fundos do Freeway. Foi assim: o Zeluiz, todo prosa dele, serpenteando pela avenida da praia, trazia no bagageiro víveres e guloseimas da Virada do Mundial; era quase noite, e de lua azul; de repente, um suspiro ‘– Plec, plec, plec’, vindo das entranhas do Fit
; preocupado, o motorista manobrou pros lados do acostamento, parou e ligou o pisca-alerta. Muito estava por vir: a senhora que ia atravessar em direção à praia, assustou-se com a ingresia e afrontou o Fit e o Zeluiz com gestos obscenos; um motorista de praça agourento, emparelhou na fila dupla por ‘solidariedade’ e disse brutalmente ‘Três ‘Plec’ é barulho de embreagem! É caixa!’; um estranho logo se apresentou das sombras ‘Que podia deixar a chave do carro, se fosse o caso de ir buscar socorro, que ele era muito conhecido no lugar; e continuou a juntar gente. Uma galera desceu dum prédio de apartamentos para tumultuar: – É vela, disse um; – Vela? Nesse carro? Bobalhão! De todos os lados, ecoaram críticas aos cuidados com o Fit, que julgaram excessivos: ‘ – É faniquito! Mimo demais. – Eu não ouvi ‘Plec’ nenhum! – Veja você: tanta gente precisando de ajuda, e só porque um carrinho ... – Carrinho não senhor, mais respeito! ... deu um ‘Plec’ à toa, vê o tumulto, o nó que deu no trânsito!’ Contras e a favor, o caldo começou a ferver. Mas, o diagnóstico do urubuzildo ‘– É caixa, é caixa!’, foi o que tomou conta do cérebro do Zeluiz e fez a pressão dele subir, ou descer, o que for pior. E ainda, mais: o sorvete de chocolate, estilo cremoso, principal ordem da Memi, na altura, já derretia no fundo do bagageiro! Que aperto, rapaz! Um bagaço! E agora? Que é? Algum milagre: uma boa alma que tudo viu da janela do seu apê, desceu pra rua, baixou no meio do fuzuê e dominou: ‘ – O que o nobre amigo deve fazer – Zeluiz, o nobre amigo – é ir para casa, sossegar e amanhã cedo procurar quem entenda de Fit, nada mais, e Deus que vos perdoe todos, pecadores!’ Girou 180° nos calcanhares, subiu e sumiu; quem resistiria à lua azul, alta, esbelta e soberba?
 O Fit fez ‘– Plec, plec, plec’ até em casa, mas o sorvete da Memi chegou na garagem ileso e foi carregado com dedicação paternal para o freezer, que também é da Memi. ‘– Não, não fiquei espiando a lua – eu, hem; aconteceu um imprevisto com o Fit’ – foi logo falando o Zeluiz, para explicar tanta demora no Mundial; imagina, um ‘plec, plec, plec’ infernal, nunca aconteceu, desligou tudo, faltou pouco pra Federal chegar, vou te contar ‘quase morri! Aff!’ Veio a madrugada! Mais sofrimento! Oh, Doutor! Esse dia era para ser extinto do calendário do Ze. Foi talvez a noite mais desassossegada dos últimos invernos: o coisa-ruim apareceu em pesadelos, curtos e sucessivos; numa hora era taxista de praça em Japeri, noutras, mecânico de ônibus intermunicipal; e em todas, sempre a mesma conversa nefasta: ‘ – É caixa! Embreagem! Seis, sete, oito mil! Olha como eu sou bonzinho! Não é baratinho? Hem? Hem? Cachorrão! Quantas vezes o Fit foi na oficina? Pensa que mecânico não tem família? Bundão! ‘
 Amanheceu. Graças a Deus! O Fit foi ‘plec-plec-plec-tando’ sem parar e chegou na porta da oficina às oito e meia. ‘– Emergência! Emergência!’ Um Volvo, com os intestinos à mostra, sinal de que a internação havia tempo, resmungou: ‘– Que dia é?’ As gêmeas BMW cochicharam: ‘– Outro furão de fila, mana!’ ‘– E a nossa pintura que não acaba, né?’ Duas Mercedes, certamente vindas da lua azul, alta, esbelta e soberba da véspera, não deram confiança. O dono da oficina veio atender: ‘– Que tem o Fit?’ Ora, o Zeluiz não podia dizer, no meio daquela gente fina, que o Fit fazia ‘– Plec, plec, plec’; as gêmeas iam pensar o quê? Então, o Zeluiz tergiversou: ‘ – Um ruído, uma coisa assim ...’
 – Abre o capô. Liga o carro. Acelera. Devagar, pô! Desliga. Liga de novo. Pisa no freio. Farol. Desliga o ar condicionado. Liga de novo. Mas o Fit nada, não reagiu, não soltou nem um ‘plec-zinho’ sequer. Havia nele um quê de criança quando nega ao médico qualquer mal-estar, só pra não tomar remédio. Enfim, calou-se, pelo direito de permanecer em silêncio para não produzir provas contra si, arre, isto virou epidemia! Ou, travou por causa duma loura de olhar almiscarado, que traja apenas uma lanterna de cabeça, cuja foto dá as boas-vindas na entrada principal da oficina, que fraqueza, que fraqueza!
 – Pode ser amortecedor? – arriscou o Zeluiz, uma tentativa de apagar a má vontade do Fit.
 – Amortecedor? Vamos ver já. ‘– EmeHum, vem cá.’
 EmeHum largou as vísceras do Volvo e veio atender ao patrão.
 ‘– Bota esse carro no elevador. Olha suspensão. Saiu pro escritório; no meio do caminho, parou, voltou e deu mais outra ordem para EmeHum: ‘– Aproveita e vê se não é embreagem.’
 O elevador começou a levantar o Fit e aumentar a FC do Ze.
 Coitados! Pesquisas científicas, na área da psicologia automotiva, comprovam que o elevador de oficina é o lugar mais vexatório para qualquer veículo, posto que suas particularidades intrínsecas e extrínsecas, até então sob o design protetor da lataria, são expostas publicamente sem nenhum pudor. E o pior, remexidas. O mesmo estudo, demonstra quanto custa ao peito do proprietário dum veículo encarar a possibilidade da troca de embreagem – há relatos de ir ao mundo imaterial e voltar, aliás, a experiência do Ze durante a noite, serve como teste acadêmico. Então, sofreram ambos, juntos, longos cinco minutos: o Fit, desfigurado pelo número 2 iminente, e; o Zeluiz, mole das pernas.
 – Amortecedor, não é! – Embreagem, também não! – diz EmeHum.
 – Ufa! – relaxou Zeluiz, aliviado.
 – Alinhamento, ok. Mangueira, vela, idem. Diabo! – diz EmeHum impaciente.
 EmeDois, que mexia numa LandRover no elevador ao lado, veio ver o que afligia o colega. Por coincidência, nesse momento, o Fit também relaxou e, como parte do processo natural, soltou um ‘Plec’.
 – Epa! É alternador! ‘Plec’ é tensor e correia do alternador! – sapecou o EmeDois sabichão.
 Dia seguinte, o Zeluiz se vingou: colou a nota fiscal, de peças e mão-de-obra no muro do 3500.

 jvictor

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