O Arroz de Memi

O Arroz e a Memi, ele, polido, longo, fino e tipo hum, ela, habilitada, alerta e atinada nos temperos, davam-se muito bem, há longos anos; a afinidade e a sinergia entre ambos era tanta, que o Arroz ficou conhecido no universo da gastronomia como o Arroz de Memi. “Oh, meu encanto de arrozinho, cozinhado, soltinho, branquinho” dizia Memi, exultante, quando levantava a tampa da panela e dava de cara com o Arroz, tal qual um bebê sequinho e cheiroso no seu berço. “Que nada Memi, você é que me tempera com muito amor, e se fico assim do seu agrado não faço mais que a minha obrigação”, replicava o Arroz todo prosa. A reverência era tamanha, que à hora de servir-se duma colher do Arroz, Memi titubeava, pedia licença, olhos rasos d’água, como se aquela operação fosse uma invasão de privacidade à panela, imaculado lar do Arroz, “Ah, você, você me lembra muito o arroz da mamã, da titi, da vovó, você é uma graça, peço desculpas, mas, enfim, há bocas para alimentar, nada contra, cada um tem o seu fado neste planeta”. Isso era o que eu ouvia toda vez que passava disfarçado pela cozinha; claro, fingia nada perceber, nunca critiquei tais afagos, procurava jamais intrometer-me, que a prosperidade dessa relação entre o Arroz e a Memi sempre foi muitíssimo importante para mim.

Entretanto, essa paz duradoura que se augurava eterna, um dia, num clarão apocalíptico para prestação de contas, desagregou-se, e na queda espatifou décadas de camaradagem. Que houve? Não escondo nadinha do que aconteceu: Memi, como fazia todos os dias, pelo meio-dia, levanta a tampa da panela de Arroz, e no lugar do seu “arrozinho, cozinhado, soltinho, branquinho” defronta-se com um Arroz diferente, amarelado, enigmático, desenxabido; assusta-se, fecha a tampa, levanta-a de novo e confirma a visão fantasmagórica. O Arroz de Memi amarelou! Estranho, súbito, devastador! “Xi! ” Então, Memi com a paciência que Deus dá às mamãs, fala sério para o Arroz: “Que coisa feia, hem! Toma jeito. Não me faça mais dessa”, e o corretivo não passou daí, afinal, era a primeira arte do Arroz.

O sermão nada adianta. No dia seguinte, e depois, o Arroz amarela de novo, e de novo.

Posto que não se admitem fatos sem causas, instala-se a investigação. Em princípio, na cozinha, fora o Arroz, todos são indiciados. “A troco de que você amarelou o meu Arroz, gracinha? ” – Memi, experiente, carrega sua carga inquisitória na Cebola, desde já a principal suspeita. “ Eu, Dona? Tô fora. Nunca amarelei Arroz de ninguém. “ Memi descasca a Cebola – “ Pera aí, você está me machucando! ” – Memi ignora os gritos da criatura, apanha um facão, vai esquartejá-la em pedacinhos pequeninos, e logo a Cebola vai virar pó dela mesmo – “ Confessa, sonsa, você amarelou o meu Arroz, não foi? ”. A Cebola resiste à tortura, Memi ameaça atirar os quadradinhos da Cebola ao azeite fervente da panela, – e Ela, altiva, nega; a Cebola refoga-se, amarelinha, incriminada pelo tom da própria cor, o Arroz de Memi amarela de novo. O interrogatório à Cebola deixa Memi exausta. Na vez de o Alho explicar-se, ele percebe a fraqueza de Memi, escapa do amasso no socador e tripudia: “Repara nesta alvura. Acha que sou capaz de amarelar alguém? ”. Um arranca-rabo rola na cozinha, que nessa hora todo mundo quer salvar o seu status: a Água põe em dúvida a eficiência do Filtro Lorenzeti; o Pimentão vermelho tenta esconder o Pimentão amarelo, seu primo, suspeitíssimo; a Cenoura e o Tomate chegam do mercado, percebem o angu, ensaiam meia volta, coniventes e frouxos, mas, o Limão, atento, pondera do fundo da cesta de vime “Opa! Daqui ninguém sai! ”; “Nosso molho é vermelho, não é amarelo”; “Tem disso não! Na panela, refogadinho, fica tudo amarelinho, tá? ”; rebate o Repolho, um veterano na cozinha; o Ovo, esse, depois que viu o que foi feito da sua amiga Cebola, ameaça atirar-se da borda da pia e a galera grita “ Pula, Pula! ”; o Cheiro-Verde, que tem alguma liderança na comunidade, fala grosso: “Vamo parar. E já! ” Outro dia, e outro e mais outro, Memi ergue a tampa da panela do Arroz: “Amarelou de novo”. “Deus, sacrifiquei a Cebola à toa? Uma inocente? ” Memi deita-se, custa dormir. Certa noite, dessas mal dormidas, um pesadelo: a Cebola aparece-lhe com o estandarte do MST, e ainda grita “Freixo governador! ” A desavergonhada diz mais “Já verificou a qualidade do Arroz? Vai ver é de segunda, né? Essa crise! ”. Duas da manhã, Memi levanta-se e vai direto à cozinha. “Nada disso, sua encrenqueira, o Arroz é de primeira, inda por cima chama-se Tio João, quer mais? Fora bruxa! ”

Mas o Arroz continua amarelado. O mal-estar aumenta; na cozinha, ninguém confia no próximo.

Um dia, como qualquer outro, acho que era uma quinta-feira, pelas treze horas, quando Memi levanta a tampa da panela do Arroz, meu Deus, que ela vê? Aquele “encanto de arrozinho, cozinhado, soltinho, branquinho”, assim sem mais nem menos, e sem explicação. Memi fecha depressa a panela. Assombração? Alguém traz uma cadeira, ela recupera o ar, as lágrimas rolam de alegria, Memi levanta de novo a tampa, agora bem devagarinho. Céus, é mesmo Ele, o Arroz de Memi, branquinho da silva. “Ah, Meu Pai abençoado” - Memi bota pra fora toda sua religiosidade - “Já pra mesa, pela Graça de Deus, obrigado”. Mas, é cedo ainda e o dia lhe reserva outra surpresa: o Arroz, aquele “encanto, soltinho, branquinho”, estava sem Sal, gente! Nada demais, depois do que Memi estava passando, ela esquecer de pôr o Sal no Arroz! Epa, pera aí! Uma coisa leva depressa à outra: ora, se o Arroz sem Sal fica branquinho, e com Sal amarela, pernas pra que te tenho, caro Watson, o Sal é o vilão que amarela o Arroz de Memi. Rápido pra cozinha enquadrar este sal vulcânico, light, rosa, flor, o que seja, diferente, trazido por uma pessoa como brinde de sua viagem com a melhor das intenções, mas que está amarelando o Arroz de Memi, essa não, seu enrustido! E o dito cujo foi logo devidamente isolado e trancafiado num pote, que a criatura não pode ficar por aí em liberdade. A cozinha reconquista a paz. Hora de recreio, o Pimentão conversa com o seu amigo Molho italiano: “Esse, vai quando pra Bangu? “Ma che Bangu, fratello” diz o Molho. “Amanhã pega condicional e volta pros luxos da casa da Diana”.

jvictor

Comentários

rodrictor disse…
Primeiro texto pós pandemia.