
Há muito de incompreensível e de enigma nas coisas que cercam o dia-a-dia, que rezas e curandeiros não conseguem evitar ou explicar. Vede o caso deste escorrega da piscina de Miguel Pereira: durante certo tempo, pouco distante d’agora, viveu como bon-vivant, curtiu dias inesquecíveis de paz, jamais foi atacado por uma multidão de banhistas, nunca soube de conflitos nem estresses; sua parceira de muitos verões, aquela escada de quatro degraus, marcou ponto ao seu lado na beira da piscina, fiscal enérgica de fronteira contra aventureiros de menos de metro e dez de altura na parte mais funda. Ele, ingênuo e bonachão, ela, seletiva e forte, completaram-se. Porém, porque não há histórias sem nenhum, e porque assim como são as pessoas são as coisas, chegou o dia que o Escorrega, que aqui se humaniza e por isso o maiusculizo, achou-se inútil e refletiu em prantos: – Ah, quem me dera menos monotonia, ah que não estou preparado para essa vida de escorrega aposentado na serra; eu, bem-disposto e ainda sem tempo de contribuição. Vede, Céus, há dias, talvez semanas, um mês, dois, não se desliza uma bundinha por mim, nem me lembro quando foi a última. Não peço muito, umazinha que seja por dia já me alivia do juízo do encosto, posto que há o risco de ferrugem, trocam-me e aí, babau! Os escorregas da vizinhança riram-se: – Não sabes, bunda-mole, que é não ter horas para ser escravizado, oprimido, esfolado por todo tipo de derrière sem ter a quem reclamar. Cala-te e não te queixes, mal-agradecido da sorte. Entretanto, o Escorrega insistiu, e tanto se queixou ao Todo Poderoso da sua sina, que Ele resolveu pôr um fim naquele mar de lamúrias: “– Et nom dabo”. Que, traduzido, quer dizer “Não enche que eu tenho mais o que fazer”. Este ponto dá asas a outro personagem na história: Mindinho. O ser desprezível, soube ouvir o Escorrega e decidiu investir naquela alma desprotegida: – Imaculado – surpresa! Deduzimos que o escorrega tem um nome – Imaculado, “o caos é uma escada”. Queres teu amor próprio de volta, a felicidade na tua mão? Dá-me carta branca e terás tudo! – Verdade? – Não imaginas do quanto sou capaz! – Faz o que for preciso.

Uma vez autorizado, o Mindinho não perdeu um minuto, temeroso que o Imaculado se penitenciasse e voltasse a cabeça ao lugar. Iluminou-se dum certo ar de escárnio e soberba, quando percebeu que parte do seu trabalho havia sido adiantado pelos donos da piscina: a escada com quatro degraus fora trocada por outra com cinco, fresca e vigorosa; a antiga, atirada às formigas, jazia havia dois dias. Um gaiato espalhou que a tecnologia 4D já era, e que hoje a 5D é quem predomina. As escadas quatro degraus da Ramada estremeceram. Cersei, assim se chama a intrusa, chegou disposta para abafar: provocante, defendeu que era mesmo necessário renovar; liberal, declarou aos “mis amores” extinta a censura por tamanho para a parte funda da piscina. O Imaculado entusiasmou-se; breve, a melancolia pertenceria ao passado! O Mindinho, alma do projeto, distraído com as saliências da Cersei, correu atrás da sua missão: cabia-lhe atrair para o palco ao menos três crianças, ou quatro, ou cinco ou meia dúzia delas. Confesso-vos que não cheguei a ver quatro ou cinco ou seis crianças. Rigorosamente eram três os que se moviam, porém, na maioria das vezes ouvi gritos de meia dúzia, muitas vezes de cinco, várias vezes de quatro e pouquíssimas vezes ouvi apenas de três. As poderosas e promissoras goelinhas vibravam sem parar em uníssono com o voo cego dos mergulhos, o frisson do entra e sai d’água e o desejo infantil de exibição. O universo do lazer na cidade agitou-se qual maremoto piscinal. Escorregas anônimos da redondeza puseram-se em alerta máximo. Passada meia hora da sessão contínua de escorregadelas, o Imaculado achou de pedir um break, um bate e volta de dez ou cinco minutos, que fossem. Sentia-se febril por causa do atrito das bundinhas, as juntas estavam doloridas, o corpo se lhe esverdeava de pavor; achou-se definitivamente perdido, na iminência de colapsar; piorou quando ouviu dizerem que o almoço sairia daí duas horas. Ah, o merecido descanso ainda demorava. Esforçou-se debalde para controlar o estrupício; apelou para direitos a intervalos, horários, etc. Bolas, sabe-se que o Imaculado vendera a consciência, tornara-se fraco, dominado e sem voz. Queria o quê? Restou-lhe rogar aos querubins que elevassem a sua reza à altura do Poderoso. Ele, que havia lavado as mãos algumas linhas acima, condoeu-se e chamou o Mindinho: – Velho pesteado. Que fazes com o Imaculado? – V. Revma. É carnaval! – Ah, que acabo já com a tua festa. Some daqui cruel! Dito assim, o tempo fechou e a tempestade desabou. As crianças recolheram-se aos respectivos iPads. O Imaculado descansou até o dia seguinte: dormiu com a batida distante dos surdos e sonhou com as boas lembranças do passado. Pela manhã do novo dia, sol quente e Nescau no sangue, a receita ideal para o quiproquó recomeçar. Desta vez, também os escorregas vizinhos reclamaram, receosos que a falta de sossego virasse moda. Decepcionado, certo de que o Mindinho é incorrigível, o Poderoso tomou uma decisão: decretou quarta-feira de cinzas. Pronto, o Carnaval acabou.
jvictor
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