Coluna Fedro I/36 - Fedromar, eu?

    Fedro chamo-me eu; êles Felipe e Pedro. Tenho por dever protegê-los das maldades dos adultos. O fato é que, dia desses, um abnegado leitor da coluna sugeriu que me fizessem um upgrade: ad exemplus, que minha capa superprotetora fosse estendida, de modo a acolher também a doce Marina. E o filantropo, quiçá bem-intencionado, propôs-se a chamar de “Fedromar” a versão atualizada do super-herói. Data venia eminente leitor, penso que super-herói 2/3 mocinho e 1/3 mocinha seria malvisto neste lado par da Via-Láctea, onde a novela das sete nem pega, que atraso! Nem por isso, deixei de considerar a proposta, posto que não se deve desprezar idéias avançadas. Trazia eu a cabeça entre os braços para melhor refletir, quando ouvi vozes. Inclinei-me e apanhei o seguinte diálogo:
    - Fedromar? O que te parece, primo Felipe?
    - A mim sugere nome de outra Estatal na área de pré-sal.
    - Estatal, hã! Não, Felipe, não sabes da missa a metade! Fedromar é um espécime up-to-date unissex de Fedro. O preço para que Marina também fique protegida.
    - Que me dizes, Pedro? Então, Fedro vira Fedromar?
    - Assim como Chicão vira Clau-di-nha e vi-ce-ver-sa. Se calha, a versão 1.1 vem embonecada com cristais Swarovski no manto, hem!
    - Que disparate – exclama Felipe. Tenho muita consideração pela prima Marina, mas, agora, incorporar super-herói de saias-calças, estou fora!
    - A voz da experiência! Que se arranje uma prima pra mana Marina e as duas que incorporem a super-heroína só delas. Pronto!
    - Mas, Pedro, isto de arranjar prima é coisa pra adultos.
    - Pois bem sei com quem tratar já deste caso – redargúi Pedro. Nem preciso ir longe. A prima pode vir mesmo daqui, da Freguesia.
    - Que seja! Assim, livro-me daquele “tudo-eu... tudo-eu” que me amofina noite e dia. No entanto, alto lá! Data venia ilustre primo, tenho outras prioridades. Quero viajar e criança pequena é um porre. Há diversas fontes para prima nesta família. Fica por minha conta catucar as tias da Tijuca, do Leblon e de Valadares. Não te metas!
    - E porque não hei de meter-me, se a irmã é minha, caramba?
    - O ofício exige que o escolhido seja assaz ardiloso. Há de convencer alguma, talvez mais de uma, de “notre tate future maman” a conseguir-nos a prima da Marina. Há, ainda por cima, de se arranjar um tio. Tu ainda não tens veia pra tanto.
    - Pombas! Como não tenho?
    - Ora, Pedro, tens só dois anos! eras um be-bê, outro dia. A tua pressa pode pôr tudo a perder, e prima que é bom, babau! A missão exige um profissional frio e calculista.
    - En-tão, larga meu jogo pega-varetas – vinga-se Pedro.
    - A titia disse que eu podia brincar – revida Felipe com ironia.
    - No que é meu, mando eu. Lar-ga!
    - N-ã-ã-o.
    - SSS-i-m!
    - NNN-ã-o!
    Esquenta a temperatura corporal dos primos. Os argumentos beiram o absurdo. Das boas maneiras ao arranca-rabo que se segue à ultima fala do Felipe, fica-me a impressão de que assisti ao cântico Pascal antes da malhação do Judas, num inusitado calendário eclesiástico às avessas. A barafunda faz entrar em cena dois adultos:
    - De castigo, ali-i-i – diz um dos adultos.
    - Você também, de castigo, lá-a-a – diz o outro.
    Que força incitou as crianças ao bate-boca pelo pega-varetas? O genitivo, pelo sentimento de posse que êle expressa: Fulano’s toy, Sicrano’s game, para só indicar alguns. Ente imaginário da gramática, o genitivo aproxima e divorcia, neste caso, o objeto da diversão tornou-se o da discórdia. Nada de beliscão no traseiro de cada um, porque na Terra há o Estatuto. Ah! o Estatuto. Assim seja! decidiu o Ministério das Maldades. De castigo, os dois empreendedores sairão de cena até que seus sonhos e projetos tornem-se pó. A pequena Marina que fique desprotegida! Pessoalmente, já não sei se ainda sou Fedro ou apenas estou. Por ora, Felipe e Pedro estão em contrição, ocupadíssimos, lápis e papel na mão, escrevendo “Não devo brigar...”, cada um, quatrocentas vêzes. Quatrocentas! Esperemos pela boa vontade das titias. Desistir, nunca!

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