Coluna Fedro I/35 - “Gay or guy”, eis a questão
Vai para além dos quinze dias, sem o agente da autoridade pôr fim ao mistério que envolve o facto midiatizado como a “quase-tragédia-da-Afonso-Pena”. Na altura, um pato de nobre madeira indiana foi achado em sua residência de inverno com a cabeça decepada do corpo. Após horas de manobras avançadas para reanimação de vida, a vítima foi transportada para um centro especializado em regrude de cacos, onde permanece sob os cuidados da equipa de resgate. O agressor fugiu para parte incerta e anda a monte.
O principal suspeito da autoria deste delito, que quase ceifa a vida ao pato, chama-se Dom Pedro Luiz, recém-chegado à terra, mas que já aprontou inúmeras. Duas testemunhas de apreço negam-se a colaborar com a inquirição, a tia-madrinha, Dona Silvia, e a avó-materna, Dona Maria: uma diz “- Não sei de nada!”; a outra jura “- Não percebi coisa alguma!”. Ha-ha-ha, põem panos quentes. Que duas!
Pois o filme começou a mudar. Imagina errado quem pensa que isto pode ficar ao sabor da dúvida. A autoridade está a investigar a relevância e credibilidade de outras fontes, e para já adianta de que elementos se tratam: os vizinhos do andar de cima. Êles ouviram, perto da noite, alguém com sotaque de gringo dizer “-Hello, gay!”, e desconfiaram de que algo não ia bem a seguir. Pois que, o pato, alvo da saudação, foi dos tremoços aos suspiros, indignado com a insinuação do gringo: “-Guei é o escambau! Quá-quá-quá! Vai procurar a tua turma!”. Vê-se! o rumo investigativo conduz direto ao suspeito nº 1. Não bastasse o sotaque, Dom Pedro, que em razão da pouca idade arranha um inglês, disse “gay” – fala-se [guei] – quando devia dizer “guy” – [guai]. Portanto, trocou alhos por bugalhos; mandou “-Alô guei!”, no lugar de “-Alô, cara!”, um disparate! Deste jeito, não há Itamarati que dê conta.
Os vizinhos sustentam que se seguiu intensa troca de palavras, cada vez mais acesas, logo após a reação do pato. O confronto agravou-se e evoluiu para um duelo escaldante. À vítima coube a fala final: “-Quá-quá-quá”! Sai fora ô-bun-dão!”. Depois, fez-se silêncio nos ânimos e no ambiente. De resto, Dona Silvia deu com a cena trágica à noite, por altas horas.
Por agora, os rábulas que defendem Dom Pedro alegam que o infante, pela razão da idade, arranha também um português, e nem por sombras havia de considerar “ô-bun-dão” uma desfeita, e que não haveria motivação para o crime, pronto, acabou-se! que descaramento!
Já a autoridade judiciária sustenta a tese de que o “quá-quá-quá” - uma “onomatopéia de gargalhada”, segundo Aurélio - por sua materialidade debochativa é o que teria levado Dom Pedro ao ato extremo. No entanto, para não se deduzir daí uma ilação de afogadilho, vale a pena esperar pela alta médica da vítima, pôr o infante e o pato frente a frente e reproduzir cenários e diálogos. E agora, a família do pato que exige um dublê da vítima durante a reconstituição do delito, e que pode emperrar o andamento da investigação! Receiam os anatídeos aquáticos que Dom Pedro não resista a pegar o pato à unha durante a simulação, e que desta vez o infante dê sumiço a qualquer partição do pato, e aí, adeus, viola! Está como o diabo gosta: por cá não há dublês, eis que morreram todos durante as reconstituições, tal é a autenticidade das nossas simulações, e não surgem candidatos ao cargo há tempos. A saída que se enxerga no horizonte de Camões é o programa “Mais Dublês”, e pra já.


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