Encontro de peles

Aumentou muito, mais que dobrou, o movimento na Bay Street depois que Pedro Luiz chegou e foi morar com a mamã e o papá no número 1035. Fosse apenas o vaivém dos amigos da casa, vá lá! mas vai se ver adiante que há outros partícipes da festa.

Fato que se deve de primeiro destacar é a presença majestosa da neve. Claro! anda nisso a mão direita d’Ele, que para saudar o menino Pedro não há melhor paparico do que tudo cobrir de branco, ao jeito de quem estende imenso tapete de paz, calma e equilíbrio, de propósito da cor do leite, é o que deduzo.

Pois, há muito que fazer na repartição de trânsito de Fall River, ou muda-se a rua para “one way”, ou se a interdita ao mulherio mais assanhado com a chegada do novo morador, ou cai o prefeito, ou acaba tudo em salmão assado.

Nem é preciso dizer muito mais, que a festa não há de ir além do ir-e-vir incessante das visitas, das quedas e subidas de pressão, dos faniquitos e “oh! so cute”, dos drinques, acepipes e sobremesas, pobre Pedro! isto se passa naquela fase da vida em que lhe falta o alimento complementar, ainda não agiu Nossa Senhora.

Carece explicar, isto sim, que outros além dos amigos, contribuem para o frenesi na Bay Street, ó língua! é preciso dar conta do que disse nas primeiras linhas. Pois, cumpra-se esta obrigação, vá-se viajar ao imaginário, longe dos erros e das verdades, porque lá, perto da fantasia de cada um tornam-se reais as idéias contrárias à razão do ser humano, e isto é quanto basta para tudo compreender. Pra já, vamos aos bosques da Nova Inglaterra!

Foi-se o dia, e com ele o sol que brilhou morno e suave sobre a branca neve adormecida, o sol que reinou reverente à cândida obra d’outro Deus. É noite, árvores e arbustos desfolhados pelo frio dos janeiros parecem mais esguios que de dia, retraídos ante a lua alta que agora é quem reina e brilha, vaidosa deusa a mirar-se inteira no extenso campo prateado. Qual! vejo sombras, ora, onde há sombras há corpos, e quando sombras e corpos se mexem, então há vida neste mato, denuncia a clara noite. Eis a brecha para saltar a tênue linha que separa o imaginário do real e voltar à Bay Street.

Está frio, já se sabe, é hora do rush das visitas ao lar do menino Pedro. Em fila, cupês, sedans, stations e off roads, V oitos ou V seis, de Mercedes a Land Rover, param em frente ao nº 1035, partilham do brilho próprio das recepções palacianas, que o prateado da noite é bastante e abraça toda a atmosfera. De cada máquina reluz o luxo, a gala, por cada porta desembarcam ricas, belas e bem tratadas peles de raposa, desfilam a última moda inverno/inverno vestindo ombros das amigas chiquérrimas da mamã e do papá de Pedro Luiz. Ao fundo, até onde a vista dos crédulos alcança, noutro cenário atrás dum virtual cordão de isolamento, aglomeram-se as sombras daquelas criaturas que vieram a pé dos bosques da Nova Inglaterra, na esperança de um autógrafo, um sorriso, um aceno que seja, vindo das peles ilustres que um dia foram raposas humildes como elas. Pois que sempre há dentre os vulpinos uma raposa cuja neta, filha, irmã, parente distante ou amiga de infância vence na vida, ou na morte, seja lá como for, chega a casaco, estola, echarpe ou cachecol, encontra o caminho do sucesso, mora nas “Highlands”, vive no refresco dos closets aquecidos, torna-se celebridade. Mas, em que mundo não há indiferença da parte de quem vive no fausto? As peles esquivam-se das fanzocas, nem um olhar ao menos de relance para o povo dos canídeos, esquecem o passado difícil d’outra vida nos bosques, cegam-nas as luzes da ribalta. Que frieza! E são assim cruéis as peles com a sua gente, não é por falta d’alma, pois nestes invernos brabos, nem morta a alma da raposa separa-se das peles.

Adentram todos ao conforto do lar de Pedro, ali beira os 23ºC, logo descem as peles dos ombros das senhoras, a estas só o Pedro interessa, e as peles o que fazem? Pois, conspiram, acredita! Uma estola, que ostenta um broche de rara pedraria, diz à echarpe:

- Oi! companheira, que te parece o PEC?

- Xi! disfarça aí. Trata-me por comadre, faz favor.

- Que seja!

- Este cheiro de salmão, hum! Perguntaste o quê?

- Perguntei sobre o Projeto de Empulhação do Clima.

Explico o que vem a ser o tal PEC, que dele ouvi falar por alto noutra reunião de peles, ainda estava o Pedro na maternidade. Pois, andam as ditas inconformadas com a sua sina, que as festas, os assédios, as viagens, todas as glórias da vida duram-lhes só os três meses do inverno, o resto do ano vivem enfurnadas no armário sem saber o que se passa no mundo. Coube então a uma finória pele de raposa, mente doentia do gênero, a idéia de fraudar as previsões oficiais do clima, em outras palavras, divulgar frio e neve na primavera e no outono, e assim provocar as mulheres a levar as peles às folias diurnas e noturnas, ao todo nove meses de festa no ano.

- E como que vai ser isso? – pergunta a comadre descrente.

- Estatizamos o “Weather Channel”.

- Ih! e isso passa? Temos votos?

- Há muitas raposas com pele de humano no planeta. Criamos o Ministério do Clima, controlamos as previsões, quem vai questionar?

- Hum! outro ministério? até tenho um nome a indicar.

- A presidência é da minha cota pessoal. Aos aliados garanto cargos no segundo escalão. Então, apóias o PEC?

Fica no ar a negociação do hediondo projeto, que a hora é de voltar pra casa, as senhoras vestem as peles, “good-night”, “bye-bye”, abraços, e quer o destino que Pedro receba o último afago da noite justo da pele infiel que anda a panfletar pró PEC. O garoto fita um olhar de raiva na subversiva, desabotoa a fralda, e zás, mija na estola, nada é capaz de estancar o valente e caudal protesto do democrata. Vai agora a dita pra lavanderia, semanas de molho, bater, enxaguar, secar, escovar, acabou-se o inverno pra ela, talvez nem preste mais, voltará à militância? olho nela! ficha suja.

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