Elementar, Pedro

Pedro Luiz acorda, chora, vem o batalhão esbaforido acudir:

- É cacá? É pipi? É cólica? É frio? Deus o que é?

Ora, Deus, que, pessoalmente, supervisionou todo o tempo o projeto Pedro, olhinhos aqui, narizinho ali, boquinha lá, mais isso e aquilo, muita atenção no “aquilo”! coraçãozinho o melhor, hem! gargantinha, idem! hora do “check-out”, tudo “all right”, deixa ver aqui no Céu o anjo da guia do menino, etc, etc, ufa! Deus, que estava tirando seu “day-off” merecido, que o descanso está entre as suas obras-primas, não ouviu o que mamã perguntava.

- Chama a enfermeira, môr!

Vem lá a doutora enfermeira, competentíssima, estudadíssima, traz netbook ou palmtop ou laptop, ou geringonça mais moderna debaixo do braço, escaneia, digita, processa, imprime:

- Ahn! está na hora de amamentar, é isso!

- Mas ele mamou faz duas horas!

- Daí? Três em três horas, duas e meia, duas, o procedimento é esse. Chorou, amamenta, pronto!

Pedro, que tudo ouve, assusta-se, fica a imaginar como pode a sua vida estar sujeita a rotina de banco de dados. Tem de acordar a cada duas horas, se calhar o intervalo deve ser menor, chorar, berrar se for preciso, pois assim é a rotina, para ganhar sempre os mesmos minguados caraminguás de leite materno, que mais êle enfim terá de fazer para experimentar a grã-finagem dos sabores da gastronomia da terra? ó que sacrifício é a vida neste mundo, caramba!

O que mais deixa Pedro encafifado é que ele nasceu num País abundado, primeiro mundo, e num lar farto, sim porque toda hora chegam-lhe às narinazinhas, vindo da cozinha, o cheiro agradável dos salmões assados pelo pai, das massas à bolonhesa, das sopas chiquérrimas da Applebee’s, dos bacalhaus com grãos de bico preparados pela avó, dos brigadeirões, e d’outros estimulantes de água na boca. A êle, se não berrar, nada; se berrar, tiram-lhe a roupa, pensam que é cacá, pipi, cólica, frio, depois ousam enganá-lo com a chupeta donde êle suga aquele manjadíssimo Funchicariol, ó mamãs e papás, acordem! que chupeta só funcionou até ser desmoralizada no Facebook, ó Deus, está bem de vida o Pedro Luiz, o que lhe espera!

Claro deve estar, que me incluo no rol daqueles que por um tempo engabelaram a criança com lisonjas, nanares, balancinhos, blá-blá-blás, no lugar de sugerir bóia reforçada para o seu estomagozinho, apenas devo menos que outros, pois que a minha embromação durou u’a semana só, mas a penitência não deve por isto ser menor. Porque, pelo menos uma vez, e só agora abro os olhos pra isso, Pedro tentou negociar comigo u’a merenda extra, tal um “gentleman”, um “businessman”, antes de recorrer à freqüência mais alta da poderosa gargantinha. Pois foi assim: eu, sentado no conforto do “living” com Pedro trazido ao colo; ele, aquietado, fitando-me diretamente no rosto com seus olhinhos azuis, olhar expressivo assim falava o que a boca ainda não dizia, e eu fiz-me desentendido, que disparate!

Por agora, imagino o mundo de palavras que se escondiam sob os olhinhos ansiosos de Pedro, naquela tarde invernal: no inglês dele, fino cidadão de Massachusetts, “- Please, I wish I could have lunch”; no português do Brasil, da parte dos pais brasileiros, “- To com fome, pô!”; no português de Portugal, por conta da sua mamã portuguesa, “- Estou a precisar d’algo mais substancial, percebes?” Pedro, educado, ainda aguarda com paciência alguns minutos, logo entende que eu nada “percebi”, então o que lhe resta senão a linguagem universal do choro?

E Pedro, pobrezinho, tem que aturar de novo a lengalenga de sempre, “- Você mamou faz hora e meia! Vê se é cacá, pipi, cólica, frio, gente, que pode ser? esse menino mama demais! Amanhã você vai ao médico, viu gostosinho?” E o cheiro agradável da comida bem temperada torna a comover as narinazinhas de Pedro, e pra ele só afagos, dengos, gracinhas que não forram seu estomagozinho, comida que é bom, nada! ó que sina!

Vai o Pedro à clínica, promessa da mamã, visita programada na rotina. Vem o doutor doutor, competentíssimo, estudadíssimo, estranha porque Pedro não engorda uma onça por semana de acordo com o manual. Prescreve-lhe o pediatra um check-up clínico completo, exames de laboratório, hemoglobina, triglicerídios, colesterol, etc, etc. Vem a doutora enfermeira competentíssima, estudadíssima, dessa vez não vi se trouxe netbook ou palmtop ou laptop, ou geringonça mais moderna debaixo do braço, apenas imagino a pessoa, espeta o Pedro onde quer, faz “download” do sangue do coitadinho, digita, cadastra, grava. Pedro dá u’a banana pra equipe, esperneia, berra por todos os poros, caramba, tanto assim custa um prato de comida! choram, derretem-se de pena, a mamã, a vovó, e o papá, se ele não está é porque é hora de trabalho pra ganhar o salmão de cada dia. Resultado: tudo “all right” com o Pedro, grandes coisas! tal “check-up” Deus já tinha feito no começo da história.

Pois, o que há com a criança que tanto mama quanto chora? haverá aí algum indício de propensão a empresário bem-sucedido na pessoa física, e chorão da jurídica? Deus o livre e guarde desse caminho, toc-toc-toc na madeira! Sai então despinguelado, o anjo da guia de Pedro, vai buscar a verdade na Igreja de Sant’Anna, que é onde Pedro fez sua primeira visita na vida, antes até de ir pra casa pela primeira vez. Ocupadíssima está Nossa Senhora com tantas súplicas por atender, mas o anjo da guia de Pedro convence-a a acompanhá-lo até à clínica, que o caso exige opinião transcendental. Ela põe sobre os ombros o manto da pobreza que só o equador celeste aquece, se manda do altar, sai pela nave lateral, enfrenta os baixos fahrenheit, aproxima-se do médico e sussurra-lhe docemente: “- É fome!”

- É fome – diagnostica o doutor vitorioso - Além de amamentar, precisa a criança de um alimento complementar.

Massa! acaba tudo na rima, amamentar e complementar, que de lá pra cá Pedro é outro homem, graças ao anjo da guia, elementar!

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