Brazilian Night
I
Começo pela emoção última, havida na volta de NY pro Rio, segunda-feira, nem sei se o abalo se deve graças à segunda de avião ou ao avião de segunda, neste caso, tanto servem substantivo ou adjetivo. Chego cedo, transponho só, qual um bravo, sem encontrar resistência, o “check in” e o “body inspection”, onde pouco vi; o barraco presenciei na hora do embarque no portão oito.
- Hahy!Itíz-uhntey kár-ee-onbág!Yoohúhv tuhchékthiswuhn – grita a casca-grossa despachante do vôo a um dos trezentos brasucas da fila.
- Quê?
- Yay!Lookúht thuhfáwrm awr yoomúhs-uhntget-ón thuhpleyn – explica a xucra e beiçuda “employee”, mostra a forma onde o volume tem de caber, custe o sacrifício que custar ao portador ou, pior, ao conteúdo.
- Cuméquié?
Ó, que punição Senhor! confundir a linguagem dos homens, por causa daquela torrezinha de Babel, dividir para sozinho governar, que espiga! Mas, sempre alguém há de plantão para atender às orações dos aflitos na hora do aperto. Do nada, vem uma criatura socorrer a coleguinha maligna da turba ímpia. Bilíngüe, figurino sedutor, na medida para violonista boêmio depois da sexta dose, jeito de 3ª princesa da Miss Colômbia 2000, vaidosa dos convites obscenos e frustrada pelo terceiro lugar, logo se vai ver, que ela vem por ordem do anjo rebelde chefe:
- Caballero, este no es el equipaje de mano. Tu no puede embarcar.
- Pero és tudo consolação para mi madre doente! Quebra o galho aí.
Parece, enfim, surgir do caos a luz para o mínimo entendimento, deste jeitinho não se precaveu o Poderoso, que furo de sistema! Caramba! Cuida, entretanto, de tudo o coisa-ruim, agente autorizado para maldades extragovernos, e antes que o finório brasuca conquiste de graça os favores do coração da vistosa criatura, ela reage friamente, insensível mesmo à multidão ao pé de si, e responde em tom mais enérgico:
- No puede! Y más tu, tu también, y los otros por allá - e, dito ao que veio, a princesa cerra os lábios, 150 gramas de filé mal passado.
Desfaz-se a fila de embarque, se dispersa a malta, a tropa cabisbaixa afasta-se do portão oito, o exército de brasucas parece destroçado. No entanto, como nem tudo que parece é, os soldados reagrupam-se adiante em círculos concêntricos. Ao centro da turba dois ou três deles, que na multidão há sempre dois ou três com devaneios de generalato, combinam ações para atacar pela retaguarda as hostis despachantes.
No meio das tabas de amenos verdores,
Cercadas de troncos — cobertos de flores,
Alteiam-se os tetos d’altiva nação;
São muitos seus filhos, nos ânimos fortes,
Temíveis na guerra, que em densas coortes
Assombram das matas a imensa extensão. (1)
Despisto, sirvo-me do fuzuê instalado, atravesso o portão a salvo do empurra-empurra discreto, de que ninguém se livra na hora dum embarque, mesmo em situações de paz absoluta. Êta! ainda dois terços dos bancos estão desocupados. 22J, este é o meu lugar.
II
Não sei dizer que diabo houve, ou se diabo não houve, vai ver o dito seduziu-se por malignidade que melhor o premiava nessa hora, quem sabe consultoria a algum governo ibero-americano. Sei que embarcaram todos com os seus trens, sem tirar nem pôr, já não haverá mamãe sem a sua lembrancinha, que caras-de-pau! Fica-me a dúvida de quem autorizou: a casca-grossa “yoomúhs-uhnt” tenho certeza que não; a princesa, esta pode ter caído em tentação, sussurrado “tal vez” e aí a galera correu pra glória; ou, mais provável, algum superior, entre a cruz do prejuízo pelo atraso do vôo e a caldeirinha fervendo, liberou geral:
São rudos, severos, sedentos de glória,
Já prélios incitam, já cantam vitória,
Já meigos atendem à voz do cantor:
São todos Timbiras, guerreiros valentes!
Seu nome lá voa na boca das gentes,
Condão de prodígios, de glória e terror! (1)
Não tarda, porém, a maligna vingança da casca-grossa “yoomúhs-uhnt”, que não há “óh-ver-hed kuhm-páhrt-muhnt” que chegue pra tanta tralha. Aperta, calca, atocha, comprime, “- vai no colo”, “- não pode”; ajusta, espreme aí, acocha, imprensa, “- vai debaixo do banco”, “- não cabe, rápido, vai decolar”; entala, arrocha, amassa, “- ah-ah!”
- Avião de eme! – grita um; - Pequepê! Nunca mais viajo nessa eme – emenda outro; - Adoram sacanear a gente – diz um terceiro.
Os gritos ecoam até a cabina. A tripulação não reage, parece bem treinada para emergências. O pássaro de alumínio alça voa. Trinta minutos de atraso! Desconhecidos até agora, tornam-se amigos de infância. Otto Lara, se vivo fosse, completaria: - Brasileiro só é solidário na anarquia. O frenesi cede lugar à profecia: - Em 2 anos, este país se ajoelha; à paixão: - Linda, tesão, pretinha, 18MP, zoom 7,5 v; ao desdém: - Árvore é a da Lagoa! Formam-se plenárias de discussão.
- E o Ronaldinho, hem? - Tá bichado! - Mas é bola! Ele é muito bola! – Dispenso. - És tricolor? - Campeão! - Ó, sou Bota, odeio o Fla, ele vai arrebentar, pode crer. - Mascarado, pô! - Mas, é bola! ele é!
- Viu os táxis? - Tudo carrão! - Falo das maquininhas. - Não reparei - Pode pagar com cartão! - Quê? – Corrida de táxi no crédito! – Pô, nisso eles são peagá! - No Rio, nego punha logo chupa-cabra, né não?
- Iogurte ruinzinho! - Xepa deles! - Tão fácil fazer! - A senhora sabe? - Hum, facílimo! - Mesmo? - 2 latas de leite condensado, iogurte natural, creme de leite. - Me manda pro e-mail? - Escreve aí.
- Quéisso aí, meu? - Cara, alfândega! - Quê! tu vais declarar notebooks? - Pô, se a federal pega! - Qualé, meu? - Pago imposto dobrado, né? – Negócio bom tem risco, saca? - Mas, se me pegam? - Ó, tira da caixa, põe na mochila, esquece! – Sei não! – Vai por mim, meu.
É um mar de assuntos, um confessionário de proezas sem penitências. Ainda assim, às quatro cochilo, às sete acordo molengão, lá vem o comissário numa intermitente ladainha: “- Kóf-ee, kóf-ee, kóf-ee” Opa! Sete mais três, então são dez horas! Acaba tudo daí a hora e meia, meu!
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