As armas, as armas (XVII)

Para alívio de todos, hoje escrevo muito, muito pouco, porque estou muito, muito cansado.

É sábado, 18/9, muito sol em Vila Nova de Santo André, na Costa Vicentina. Estamos a meio caminho de Palmela, onde fica-se de 19 a 21/9, depois logo, logo acontece o retorno triunfal a Lisboa, mais dois dias de grandes comemorações, e pronto.

Santo André é uma cidade pequenina, muito sossego, justo para quem não quer fazer extravagâncias, o hotel tem um perfil meio rural, porque aqui confundem-se o urbano e o rural de tão pequeno que é o lugar. Pois ideal para nós, que após chacoalhar o corpo tantos dias precisamos de repouso a fim de reunir alguma energia para a arrancada final. De manhã, visita a Porto Corvo - 20 km daqui - lugar pequeno e muito calmo com um belíssimo litoral, tão belo quanto o Algarve, obviamente sem a infraestrutura e o charme de lá, que tanto fascina ingleses, franceses e italianos - espanhóis, quase não vi, porque Deus é bom. Portanto, bem pensada esta pausa no agito aqui em Santo André.

Vem então a hora do almoço - "bacalhau a mil maneiras", que de verdade é de três ou quatro maneiras, todas com batatas - bacalhau, pra ela, e polvo, pra mim, mais sangria de vinho rosé, pra cada um, e depois, planos de dormir durante a tarde, pois que após este cardápio não há o que se possa fazer em sã consciência.

Ora bem. Ocorre-me, entretanto, que está na hora de fazer um agrado, pequeno que for, ao Sr. Avis - não lembro se já falei, mas o Sr. Avis é o veículo que nos serve há quase 30 dias, levando-nos dum lado pra outro sem jamais dizer um ai siquer. E ocorre também, que bem junto do hotel há um posto de gasolina, onde se pode mandar lavar o coitadinho, todo esse tempo sem um banho, onde se vê tanto maltrato, os outros andam nos trinques, e ele nesse nojo, afinal isso não deve custar-me assim tanto.

Concorda a Memilia com o benefício - "- Muito justo, muito!" - decide ficar no apartamento a copiar fotos da memória pro pendrive, enquanto eu venço a sonolência, pego o Sr. Avis e vou ao posto.

Chego e verifico tudo tão ermo por lá, que por um instante imaginei que tivessem fechado e saído de férias. Salvo-me dessa má impressão, quando um sujeito sai de dentro da loja de conveniência. Entro. Uma senhora está de pé atrás da máquina resgistradora:

- Boa tarde! - porque aqui se não se diz bom dia, boa tarde ou boa noite não te atendem e ainda te rotulam de mal educado.

- Boa tarde - responde a senhora.

- Ainda lava-se carro a estas horas? - pergunto desconfiado.

- Claro, lava-se a toda hora - diz ela meio injuriada com a pergunta, que decerto pareceu-lhe troça.

- Pois que não vejo ninguém por aqui!

- A lavagem é automática - responde ela.

- Ah! Pois sim - tento remediar o meu disparate, muito sem jeito - Está bem, E quanto custa?

- Cinquenta centimos.

Caramba! penso eu: cinquenta centimos, isso convertido dá R$1,25, por que não mandar lavar o carro todos os dias? Chegaram a um nível tal de automatismo que barateia demais os custos. Eta, o que é primeiro mundo!

- E é pre-pagamento - explica a senhora.

- Pois que sim, tem já aqui os cinquenta centimos, obrigado.

Feito o pagamento, a senhora entrega-me duas fichas, percebe minha cara de obtuso, e resolve passar-me as instruções operacionais:

- O senhor mete primeiro a ficha nº 1, faz favor. Pega a mangueira que vai lhe dar água já com detergente por 2 minutos. Tem lá umas vassouras pra ajudar a limpar se for preciso. Depois o senhor mete a ficha nº 2, faz favor, que vai lhe dar água limpa pra enxaguar por mais dois minutos.

E, de sim senhora em sim senhora, e de faz favor em faz favor, eis que me transformo num lavador de carros especialista em lavagem automática. O descanso fica para a próxima parada.

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