As armas, as armas (XIV)

1. Que o nobre leitor não se preocupe. Não perdeu-se o "As armas, as armas_XIII". Este capitulo, por sinal longo e cruel, será escrito a posteriori, muito provavelmente no Brasil, por absoluta falta de tempo e de recursos agora.

2. Vamos a uma história interessante mais agradável e fresca. Pois, eis que estamos em Tavira à hora do almoço. As alternativas por lá para almoçar são muitas e, por acaso, escolhe-se o Restaurante Imperial no calçadão, à beira da ria e do fresco, prazeres que os concorrentes também oferecem. Não é de se pensar que um estabelecimento tradicional do ramo mande confeccionar um menu onde se lê "50 anos ao serviço da gastronomia do Algarve", mais "diplomado e recomendado pela Direção Geral do Turismo, patatá, patatá", e "se gostou, recomende-nos", etc, etc, e ao mesmo tempo seja tão honesto ao ponto de incluir junto à sua marca a expressão "2ª categoria". Mas assim é, e disso guardamos prova material que exibiremos aí - epa! espera aí, não devem os nobres leitores pensar que obtive tal prova por meio ilegal, do tipo vapt-vupt na sacola de Memilia, nada disso - pois perguntei ao garçom se podia levar o cardápio a título de recordação e ele respondeu-me amavelmente assim: "- Podes levar o que quiseres, só não podes levar dinheiro". Fico então a imaginar se algum de nós há de viver o bastante nesse país chamado Brasil, capaz de encontrar um serviço qualquer que rotule a sua qualidade, e abra os nossos olhos consumidores, por ex., Pizzaria X, 2ª categoria, Salão de Beleza Y 3ª categoria, e por aí afora, penso que tal idéia não vinga. A propósito, a comida servida pelo Restaurante Imperial é excelente, talvez tenham por objetivo alertar que não se trata duma casa com rapapés, enfim não consigo entender o que faz estes gajos subestimarem-se a tal ponto. Mas, isto é Europa e pronto! Ora, muito nem, feita esta introdução, digo-lhes que por acaso ela nada tem a ver com o fato que motivou-me escrever esta notícia, e que de fato começa a contar-se daqui pra frente. Ajeitem-se.

Estamos eu e Memília à altura da metade do prato, cada um, o meu, arroz de polvo, o dela, bacalhau à casa, quando adentra no restaurante um casal de velhinhos muito enrugadinhos - aliás, por aqui, velhinhos, muito velhinhos mesmo, não ficam em casa a ranzizar; capricham nas vestes, elas especialmente pintam-se e enjoialham-se todas e vão ranzizar na rua que é lugar mais fresco, apóiam-se um no outro, e quando um não tem mais o outro, apóiam-se em bengalas ou muletas, mas entre quatro paredes não ficam de jeito nenhum. Pois o casal entra no restaurante e senta-se numa mesa ao lado na nossa e começa a ranzinzação. Diz ela:

- Nãoseiquê, nãoseiquê, nãoseiquê.

- Mulher, não entendo o que dizes. Que que cheira mal? - pergunta o velho, supostamente marido.

- Não senhor! Nãoseiquê, nãoseiquê, nãoseiquê.

- Mulher, diz o que queres comer e depois vamos ao resto, tá bem? Que queres comer?

- Qué que têm - pergunta a velha.

O velho pega o cardápio e lê pausadamente:

- Vitela à casa, arroz de polvo, lulas grelhadas, lombo de porco, bacalhau à casa e chocos grelhados.

- Nãoseiquê, nãoseiquê...

- Mulher, não entendo o que dizes! Escolhe o que queres e tem que ser pra já.

- Qué que têm?

- Vitela à casa, arroz de polvo, lulas grelhadas,... - repete o velho.

- Cá fazem meias? - pergunta a velha.

- Não, isto é uma casa fina, não fazem meias - responde o velho. Anda, escolhe o que queres.

- Qué que têm?

O velho apanha de novo o menu e lê os pratos do dia:

- Vitela à casa, arroz de polvo, lulas grelhadas....

O garçom, que diplomaticamente havia dado um tempo para que o casal aplainasse as rugas, chega-se cautelosamente para intervir naquela guerra que parece não ter fim.

- Então o qué que querem?

- Qué que têm? - pergunta a velha.

O garçom prepara-se para ler as sugestões do dia, quando o velho levanta-se de súbito:

- Eu quero lombo de porco e vinho. Vinho tinto - pede licença e sai furioso em direção à casa de banho pra lavar as mãos, e provavelmente refrescar a cabeça. Ficam só o garçom e a velha.

- Então, e a senhora? Já escolheu, e vai querer o que?

- Qué que têm?

- Vitela à casa, arroz de polvo, lulas grelhadas... - fala de memória o garçom.

- Não sei o que peço, não sei se gosto... - argumenta a velha.

- Ora, minha senhora - diz o garçom - peça o que quizer, se não gostar não paga, agora, se não pedir não sabe se vai gostar ou não.

- Então, dá-me vitela à casa - decide-se finalmente a velhinha.

E, quando o garçom já se encaminha para fazer o pedido à cozinha, a velhinha levanta-se, segura-o pelo braço e diz:

- Peço desculpas por ele, sabes. Não anda bem da cabeça. É capaz de ler uma coisa uma hora e daí a um minuto já não se lembra do que leu, uma tristeza. Também já passou dos 90 anos, sabes como é, peço desculpas por êle.

- Ora que nada senhora, ele está mais forte do que eu - tenta safar-se o garçom.

- O que? Então não viste? Quantas vezes leu e releu o cardápio? Uma tristeza! Está no fim!

Mais da ranzinzação não pescamos porque já estamos no segundo cafezinho, não foi possível prosseguir com o corpo mole, é preciso interromper a pescaria e pedir a conta.

3. Informação de última hora do "As armas, as armas_XIV".

Baixou o preço do Casal Garcia branco. Agora paga-se E 2,87 a garrafa, ou se levar a caixa com seis, paga-se E 2,68 a unidade.

Comentários

Priscila disse…
Véia malandra, quero ser assim quando tiver a idade dela.