As armas, as armas (VIII)

- O Código Aljubarrota custou menos sacrifícios aos portugueses do que o "traveler cheque" da American Express tem custado a mim. Nem hotéis, muito menos lojas, etc aceitam o TC, que assim este intolerável tido inocentemente como confiável meio de pagamento, este TC passa a chamar-se daqui pra frente de "terrible cheque". Existe apenas uma forma de transformá-lo em moeda local, que é no balcão do BPN, mas ainda assim a operação tem sido uma via-crucis. No geral, perco cerca de uma hora em cada troca, vendo e ouvindo as trapalhadas do pessoal do Banco. Conto aqui, uma dessas sessões de tortura, e esta aconteceu na agência de Castelo Branco.

- Já não compramos mais disto - diz-me o caixa Sr. Ferro, mal apresento-lhe o "terrible cheque".

- Mas seu colega em Aveiro comprou - argumento, enquanto mostro-lhe o recibo da operação.

- Então foi há muito tempo, se calhar... caramba! foi sexta-feita, esta agora, passada? Deixa-me ver isto.

E o Sr. Ferro telefona pra agência do BPN em Aveiro:

- Bom dia, aqui fala Luis Ferro de Castelo Branco...

- Desculpas, não conheço nenhum Luis Ferro de Castelo Branco - suponho seja a reação de quem atendeu em Aveiro.

- Espera aí "culega", não sou Castelo Branco, e sim do BPN de Castelo Branco - a partir daí vê-se que ambos já se aceitam, penso eu. Então, como é que vai a vida? - o Sr. Ferro segue uma conversa mais descontraída com o "culega".

- Ah, está tudo na mesma - responde o de lá, imagino eu assim.

- Pois "culega" - continua servilmente o Sr. Ferro - está aqui uma pessoa que traz uns TC e pra mim não comprávamos mais disto, mas a pessoa diz-me que os vendeu aí outro dia, como é isso?

O "culega" dá ao Sr. Ferro as explicações sobre a rotina.

- Ah, sim, sim, sim, já percebi, obrigadinho - diz o Sr. Ferro, aparentemente ele entendeu toda a operação, e desliga.

Depois o Sr. Ferro começa a manusear os cheques, como se aquilo contivesse hieróglifos, coça-se, lê instruções, começa a suar, e de repente, pega de novo no telefone.

- Ô "culega" aqui é Ferro de Castelo Branco, de novo, como é que vai a vida? Olha, estou aqui atrapalhado porque o sistema exige-me um número pra operação, onde que eu acho isto?

- Ô "culega"  - suponho que o de lá responda que deve telefonar para uma central em busca do tal número.

- Ora, sim, sim, sim, já percebi, decerto é a Diretoria Internacional, já, já, já percebi, obrigadinho, peço desculpas.

O Sr. Ferro então liga para o tal numero, pareceu-me um 0800 qualquer.

- Ô "culega" aqui fala Ferro de Castelo Branco, ou seja, do BPN de Castelo Branco, como está a vida? Pois aqui estou embaralhado com o pagamento duns TC, já há muito que não fazia disto, e falta-me um número.

O atendente dá-lhe as explicações e ele parece entender, uma inteligência rara o Sr. Ferro:

- Ah, sim, sim, sim, já percebi, obrigadinho - e desliga.

Entre umas e outras o Sr. Ferro, dirige-se a mim. diz uma piadinha, pergunta-me "- Como está a vida?", pede desculpas e diz:

- Agora vai, agora vai, só mais um bocadinho, peço desculpas.

E ele segue passo a passo a rotina, mas os TC têm códigos super secretos, não estão cá para serem pagos, que é isso? Então, de repente, o Sr. Ferro volta a suar, seu semblante denota vontade de chorar, e ele pega de novo o telefone desesperado, e digita um número, pareceu-me que aquele mesmo 0800:

- Ô "culega", aqui é Ferro de, quero dizer do BPN de Castelo Branco, como está a vida? Pois creio que falei consigo mesmo ainda há pouco, pois agora o sistema pede-me um código de 23 dígitos e cá no TC só vejo 12 números, que diabo de código é esse?

Imagino que o atendente diz-lhe que deve ligar para a Amex, pois ele levanta-se da cadeira apalermado e diz:

- Espera aí, então é em inglês? Epa, assim isso já não é mais comigo. Obrigadinho - e desliga.

Nessa hora o Sr. Ferro vai até a mesa dum colega que trabalha na retaguarda, provavelmete, gerente ou coisa parecida, explica-lhe a situação, o sujeito pega no telefone, digita um número e com ar de superioridade diz mais ou menos o seguinte:

- Hello, my name is Fulano from BPN in Portugal, I need tá, tá, tá, tá, tá. Então, creio que depois do contato com alguma central da Amex, a ligação é transferida para outra central em Portugal, e aí o Sr. Ferro volta a comandar a operação:

- Ô, como está a vida? Sim, sim, sim, sim, sim - suponho que a Amex lhe dite as regras de formação do código de segurança baseado na numeração do TC - Já está, já está , já está, obrigadinho, peço desculpas.

E, digitado finalmente o super hiper código secreto corretamente, já o sistema satisfaz-se e emite o recibo do pagamento do TC menos 2% e IVA, o Sr. Ferro perde o vermelhidão que lhe transfigurava  as feições e o "splish, splish" da impressora soa como se fosse uma sinfonia para os meus ouvidos e um bálsamo para os bolsos. Já passa das 3h da tarde, e os restaurantes estão todos fechados. Agora, só resta-me esperar que abram para o jantar, isso após as 19h 30m, caso não resolvam tirar férias até 15 de setembro, como toda Europa faz.

jvictor

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