O Caruru de São Cosme... e Damião

Chamam-se Cosme, o camarão, e Damião, o polvo. Na intimidade tratam-se simplesmente por Camarão e Polvo. Pois estão ambos em sossego, congelados a -20ºC, aguardando os avanços da ciência para futura ressurreição, quando o cientista tira-os do freezer e leva-os à banca do laboratório. Diz o Camarão para o Polvo, passado um tempo:
- Enfim, de volta à vida!
- Hum! Vida de camarão?
- Que outra vida há de ser?
- Escolhe.
- Puxa! Quero ser senador.
O Polvo perde a paciência com o ingênuo Camarão.
- Idiota! Que te diz o cheiro?
- Cheira mordomia!
- Cheira tempero, besta!
- Epa! Tempero?
- Põe tuas barbas de molho Camarão.
- Que há? Conta-me, Polvo!
- Há que ouvi falar dum tal caruru de São Cosme.
- Em março... hã! Polvo sabichão, mês de caruru é setembro.
- Duvidas? Escuta essa. O Doutor, quando compra cinco camisas pra presentear a cinco pessoas diferentes, escolhe a mesma cor, marca, feitio e tamanho pra todas; mas, se ele encomenda duas dúzias de cervejas, manda vir cada garrafa dum tipo e dum fabricante diferente. O que mais pode sair dali? Caruru de São Cosme em março é o de menos!
- Caruru de São Cosme e Damião, não é Damião?
- De São Cosme, foi o que ouvi falarem.
- Como assim, só de São Cosme?
- Ora, Cosme! No Rio a moda é caruru de São Cosme, sei lá!
- Não me chama de Cosme!
- Então, não me chama de Damião!
Entretidos pelo áspero diálogo, nenhum dos dois percebe quando o Doutor os coloca sobre uma tábua, traz para junto da boca duma panela fumegante, e vapt no Camarão. O Polvo assusta-se, por um tentáculo não cai naquele mar borbulhante, vê-se nos olhos do cientista e percebe que “caruru de São Cosme” é só u’a mania preguiçosa dos humanos de falar as coisas pela metade. Ali se tramava, pois, um homicídio duplo.
Apaixonado pelos efeitos especiais dos filmes de James Bond, o Polvo balança sobre o abismo, equilibra-se, abusa do poder dos seus tentáculos e sobe de volta na tábua para espanto do cientista. Finório, não perde tempo, puxa conversa antes que o Doutor acorde do devaneio. Primeiro, declina da isonomia, excentricidade da justiça populista; depois, recomenda ao cientista que o preserve, ao menos congele o DNA, ou estará próxima a extinção da espécie do jeito que o governo aumenta por decreto o tamanho da classe média; em seguida, aconselha prudência ao anfitrião, visto não ser delicado convidar pra caruru de São Cosme e servir à mesa caruru de São Cosme e Damião; e, por último, lembra, ninguém deve bulir com a mão do destino, e o seu, dito por u’a mãe-de-santo, é converter-se no Natal em arroz de polvo, iguaria que o cunhado e o afilhado do Doutor tanto apreciam.
Parece que nesse momento, a proposta coincidiu com a reação, pois quem assistiu jura que o cientista quando ouviu este último argumento, sorriu e vupt no Polvo. Zilhões d’outros seres do mesmo genoma do Camarão e do Polvo estão na panela. Mas eles caem mudos e submergem calados na fervura. Azar! perdem a chance de entrar pra história. Já o Camarão e o Polvo, estes são dois personagens de colarinho branco, bem-criados e influentes nos altos escalões do governo. Advogados correm a pedir por eles panela especial e habeas corpus; o Camarão e o Polvo discutem:
- Panela superlotada!
- Tudo corrupto! – diz o Polvo.
- E nós? Como ficamos?
- Estamos limpos, Camarão!
- Não somos Cosme e Damião!
- Daí? – rebate o cínico Polvo.
- Falsa identidade é crime?
- Aqui não! Julgam autodefesa.
Vê, nobre leitor! A patifaria impera até na sociedade animal. Ano após ano, o Camarão e o Polvo dão o golpe da identidade falsa e safam-se das panelas. Eles passam por Cosme e Damião, filhos gêmeos de Xangô com Iansã, perante os devotos humanos. Divertem-se à farta nas festas do caruru, enquanto seus compatriotas são sacrificados em sua homenagem. Canalhas! Mas chegam as águas de março, e o vapt-vupt dum Diocleciano desmascara a farsa. O Camarão desespera-se; o Polvo traça planos para se livrar da enrascada.
- Importa não perdermos a pose.
- Como assim, Polvo? Está quente aqui!
- Esquenta, mas uma hora esfria. Fica calmo!
- Epa! Quem vem lá?
- É dendê e coentro! Fica frio!
- Precisam humilhar?
- Faz-te bem! É analgésico.
- Caramba! E agora? Que se passa?
- Que vês, Camarão?
- Vão nos transferir!
- Pelas barbas de Netuno!
- Que há, Polvo?
- Louça da Companhia das Índias, meu irmão!
Levam a terrina para o lugar de honra no centro da mesa. Os humanos ocupam seus lugares. Os flashes iluminam o ambiente de festa. No colo do Rodrigo, Felipe ri.
- Tenho já uma estratégia – diz o Polvo.
- Boa coisa não deve ser!
- Disfarça! Conta quantos há à volta da mesa – ordena o Polvo ao Camarão.
- To contando.
- Quantos?
- Contei nove, mas um rapaz vai comer bife com fritas.
- Bom rapaz! Ora bem! Nove menos um são oito, certo? - conclui o Polvo.
- E daí?
- Ficamos os dois quietos grudados ao fundo da vasilha. Os patrícios à nossa frente dão conta de oito conchas bem cheias deles, que hão de satisfazer os humanos. Nos meus cálculos, ainda sobram alguns do zé-povinho. E nós, claro!
- Esqueces uma coisa! Se houver repetição, babau!
O Polvo impacienta-se com o pessimismo do Camarão. Controla-se.
- Se fosse na Bahia dava-te razão. Aqui? Vá lá que um ou dois repitam. Mas a maioria dos humanos vai empanturrar-se na primeira concha. Vês farofa de dendê na mesa?
- Sim.
- Então, vai ser a glória!
- Sei não!
- É pegar ou largar! Anda, desce que estou bem atrás de ti.
- Bolas, por que não ficas tu na minha frente, Polvo?
- Ora, pipocas! Calculas como é o tsunami que uma concha provoca quando mergulha na terrina? Pra mais de nove pontos, criatura! Vais de roldão se não houver alguém te abraçando por trás com estes tentáculos.
- Olhando por esse lado!
- Por Netuno, sou teu amigo pra que?
Começa o banquete. A concha afunda pouco no caldo; polvos e camarões da superfície bastam-lhe pra emergir lotada. Depois mergulha de novo, outra vez, cada vez a concha desce mais fundo, por oito vezes, quando cessam os mergulhos. U’a tampa de louça fecha a boca da terrina. O caldo antes revolto, acalma-se. O Camarão e o Polvo respiram aliviados. Até aí tudo corre como planejado.
Comem e conversam os humanos; mais comem do que falam. Correm os minutos devagar. O banquete espreguiça-se pela tarde, como em casa de baiano, e isso faz aumentar a ansiedade do Camarão e do Polvo. Aqui e ali se ouvem louvores ao caruru. De repente, abre-se a boca da terrina. Do alto, surge a concha; ameaçadora, desce sobre o caldo, vagarosamente. Tem início a repetição. O Camarão começa a sentir dor de barriga.
- Calma! - diz o Polvo confiante. Tudo isto está previsto. N’ua mesa com oito há sempre um ou dois comilões que repetem o prato. Estatística, meu caro Camarão!
Mas a estatística vive de médias nem sempre justas. E nesse dia, a concha da repetição desce sete ou oito vezes, pelo menos. Duma vez, chega até o fundo e fustiga a dupla escondida. O Polvo, que ainda traz o Camarão seguro pelo peito, solta-o como quem oferece uma oferenda ao sacrifício. A tampa torna a fechar a boca da terrina.
- Ufa! Acabou! Livrei-me de boa! - suspira o Polvo aliviado.
Porém, eis que surge uma variável fugida ao controle. O Rodrigo não contou no rol dos oito comensais, pois à hora do levantamento cuidava do pequeno Felipe. Ele, o nono, cujo estômago já organiza passeata, senta-se à mesa por último, e sem cerimônia, mergulha a concha na terrina. Vem a seu favor u’a farta pescaria e “last but not least” o Polvo.
O Polvo cai no prato do Rodrigo; logo, logo ele avista à frente o Camarão, que repousa feliz no prato da Priscila: “- Camarão de sorte, sô!” Frio, o Polvo tenta a derradeira jogada.
- Olá, amigo Camarão! Aqui vai uma dica: sei que o Rodrigo não gosta de camarão.
Então fazemos assim: saltas daí pra cá e eu pro prato dela. Quem vai notar a troca? Que te parece? Quando eu disser já... Um, dois, três e...
- Nunca! – repele-o o Camarão.
O Polvo não desiste. Ainda vê espaço pra negociar. Encara o Rodrigo e fala sério:
- Olá! Interessam-te “inside informations” do pré-sal? Tenho amigos influentes lá.
A justiça trabalha rápido prum dia de sábado, mas o habeas corpus não chega a tempo. Rodrigo num glup engole o Polvo; Priscila num glupizinho engole o Camarão.
Vão-se os falsos Cosme e o Damião: cada um segue o seu destino. Aos vencidos, azeite de dendê ou pimenta malagueta; aos vencedores, o Camarão e o Polvo! (1)

(1) por analogia de “Ao vencedor, as batatas” - Machado de Assis, in Quincas Borba, 1891.

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