De Miguel a Petrópolis
I. Descendo a rampa de Miguel e seguindo pelo Alto da Ramada até o Centro.
- Desce devagar.
- Tô devagar.
- Abre na curva.
- Eu sei.
- Sobe. Depois volta.
- Tá.
- A vala! Encosta. Mais!
- Tô encostado.
- Manobra pra voltar.
- Vou por cima.
- Quê, por aqui!
- Chega no Centro.
- É muito mais longe.
- Dá no mesmo.
- Faz que você quiser. Cadê Rodrigo?
- Taí atrás.
- Que portão! Uma paradinha?
- Não!
- Uh, que pressa! Devagar!
- Tô a 20!
- Ó, Felipe comeu agora!
- Tá roncando.
- Nesse balanço? Deus o ajude!
- Facilita a digestão.
- Engraçadinho! E o Rodrigo?
- Taí atrás.
- Cadê? Já vi, já vi. Que idéia! essa poeira!
- Deixo Rodrigo passar?
- Não! Ele não conhece o caminho.
- Então?
- A Dani enjoa com poeira, viu?
- O carro tá fechado.
- Rodrigo? Ar condicionado? Ahn!
- Viva! Asfalto. Em frente?
- Isso! Direto.
- Fui
- Pra direita. Dá seta.
- Tá.
- Espera! que o Rodrigo se perde.
- Sim!
- Passou o Florescer, esquerda.
- Viu? Taí o Centro!
- Por baixo, a gente tinha chegado ó!
- Dava no mesmo.
- Devagar. Bramil... Paty pra esquerda.
- Eu sei.
- Dá seta.
- Tá.
- Devagar!
- Tô a 15!
- O Rodrigo tá te vendo? Cadê?
- Taí atrás.
II. De Paty até o Vale das Videiras, pela RJ116, subindo, descendo, subindo...
E pela estrada afora prosseguem, Ele e Ela, nesse diálogo embriagado nutrido pelo néctar da aventura. Ele, o Honda Fit, nau capitânia, ofegante, singra em primeira marcha a imensidão do mar de poeira. Ela, a Vênus lusíada, alerta, olhos de águia, um no caminho sem fim, outro no retrovisor, parece antever mouros à espreita adiante das curvas que o filho, a nora e o neto obrigatoriamente hão de transpor.
- Acuda Júpiter, pai justo e poderoso,
Desperte do profundo mar Nereide,
Tudo escude contra o mouro furioso,
Quanto conceda que a praga se liquide,
E mais todo mal deste chão escabroso
Com que o pérfido algoz intimide,
Capaz de acossar minha família,
Ou não me chame de Maria Emilia.
Segue a armada cristã seu épico destino. A fúria dos ventos soltos por Netuno na última tempestade erodiu as margens, desertificou os prados e as hortas. Loucos varridos que trilham no sentido inverso montam em vespas, suzukis e variantes, expõem infantes inocentes aos perigos da travessia. Fogem do inimigo infiel ou da peste? Aqui e ali, a estrada tenta com malícia emboscar o Fit em suas curvas serpenteantes. Ele acelera para vencer a tentação do mal insinuante e ardiloso. O motor 1.5 esforça-se.
- Devagar!
- Menos, só de ré.
- Rodrigo tá te vendo? Cadê ele?
- Taí atrás.
A Lua, cujo brilho o Sol ainda nega, tira sua soneca vespertina. Desperta-a, um cisco da poeira que sobe do planeta. Abre os olhos, espreguiça, e o que vê? Dantesca visão. O Fit coberto de pó vermelho! Ela se conforma, não está mesmo em boa fase. Acabou, pronto! Triste, soma forças e dedica-lhe um poema.
- Bruxo! Quanto a tua luz fascinava
Tantas estrelas no último inverno!
Apaixonei-me também, fiz-me escrava.
Por teu brilho jazia o meu, subalterno,
Em tua pintura nova que estalava.
Hoje, flagro-te com a vil poeira do inferno.
Deixas-me? Isso é papel de moleque.
Pobre de ti! Acabas um calhambeque.
Súbito, a Vênus lusíada desconfia do mar de pó que adiante se levanta.
- Inimigo à vista!
São Tiago! Pois que surge no caminho o gigante Adamastor sob as ordens do traiçoeiro Baco. Vem o infiel em sentido contrário, disfarçado de ônibus e atravessa a frente do Fit no trecho mais estreito do oceano de terra, passagem tão apertada que ali sempre sai briga quando dois veados se cruzam.
- Pára! filho-da-mãe, pára!
- Tô parando.
- Eh, eh! Aonde que o senhor vai?
- Pra Paty.
- Encosta, encosta mais.
Ela sente cheiro de perigo. Por ordem do divino, emerge a ninfa Nereide de uma névoa rósea de argila espumante. Juntas sopram forte contra o titã Adamastor e o arremessam contra os rochedos da escarpa. O Fit, o Rodrigo, a Dani e o Felipe passam ao largo do estreito da cilada. O piloto mouro vencido foge submisso e desaparece nas brumas de poeira. Espada à cinta, a armada navega em calmaria.
III. Último passo da expedição: até o reino de Petrópolis...
Aporta a armada trazida sob a proteção da Guarda Divina. Chegam os navegadores, enfim, num mar de rosas ao Vale das Videiras. Da nau capitânia ecoa o grito.
- Asfalto à vista!
Alvíssaras! À frente, tudo asfalto, um sítio familiar tantas vezes visto e praticado nas rotinas de manobras. Não há mais marinheiros trépidos no mar de pó que confinava com a terra infestada de pagãos. O moral da tropa cresce.
- Estaciona ali.
- No sol?
- Isso! que a sombra fique pro Rodrigo.
Desembarcam todos. Agradecem a Júpiter. Abastecem e descansam. Claro, Ela tira fotos, festeja o triunfo sem baixas após árdua jornada.
O morro entrega-se ao domínio da tropa. No entanto, ferve-lhes nas veias o sangue ávido pela conquista doutro território. Qual D. João I sai de Tomar rumo a Aljubarrota, Ela ordena à armada descer sorrateira as curvas da colina, confiante que o elemento surpresa é a melhor estratégia para atingir as defesas do príncipe-caçula.
- Devagar!
- Tô a 15!
- Rodrigo tá te vendo? Cadê ele?
- Taí atrás.
O sol declina para o lado do vale e a sombra exalta a vegetação viçosa. Por um momento, a Vênus lusíada já não persegue as quimeras da conquista. E cede ao instinto do fascínio pelos jardins dos imponentes palácios da fidalguia em Araras. Quer parar, descer e fotografar. Fazer festinha no Felipe. O Fit responde com um gélido monossílabo.
- Não.
A noite vem próxima. A Lua esconde-se atrás duma cortina de nuvens. A bela sofre por conta das aventuras do Honda Fit. Deixa ordens com as estrelas mais íntimas.
- Não estou pra ninguém!
Afinal, a tropa chega à imperial Petrópolis. Apeiam todos.
Não haverá qualquer batalha, contudo. O príncipe–caçula ordena que abram as portas do palácio do Retiro. Vem ele próprio receber a invencível armada. Abraçam-se como irmãos de sangue que são.
- Colchões temos muitos; casas de banho duas, uma exclusiva para El Infante Felipe cagar.
- Eu não ouvi isso – diz a rainha-mãe vexada.
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